Sábado, 30 de Julho de 2011

Alfaiataria Real (II)

    Desta vez, em vez de partilhar um poema do qual gosto, vou mostrar aqui um poema que não me atrai especialmente, de um autor que não me diz grande coisa - mas que é bastante tido em conta quando se fala de Fernando Pessoa - e com o qual discordo na mensagem quase tanto como desgosto da sua maneira de escrever. Trata-se de Alberto Caeiro. O poema é o que se segue:


IX - Sou um Guardador de Rebanhos

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.


     O texto acima pertence à obra de Alberto Caeiro chamada "O Guardador de Rebanhos". E não é que eu nem goste deste poema em particular. Dentro da obra, diria que este é aquele com o qual me identifico mais.            
    O autor exprime a sua mensagem de maneira bela, agradável de ler, no fundo. Aquilo com o qual não me identifico nada na obra de Alberto Caeiro é todo o conjunto dos seus textos. São todos uma e a mesma coisa. Como que todo um programa ideológico contra a metafísica e o sobrenatural disfarçado em poemas, alguns dos quais não vejo o motivo de estarem representados em verso, quando mais parecem discursos "políticos" sem qualquer sonoridade fora do normal ou harmoniosa. Se quiserem entender o que digo, basta passarem uma vista de olhos por mais dois ou três poemas do mesmo pseudónimo de Fernando Pessoa como Há metafísica bastante em não pensar em nada.  ou Quem me dera que eu fosse o pó da estrada .
   No entanto, gosto da simplicidade do vocabulário deste poema em contraste com outros de Caeiro, do encadeamento inicial tão belo dos "rebanhos", "pensamentos", "sensações", e das belas imagens que transmitem as as três últimas estrofes, em que realmente o autor poetiza a mensagem - com a qual discordo - de que "a única verdade é ser", "a filosofia é inútil", no fundo, a rejeição da metafísica e de qualquer sentido para a vida, advogando portanto a vivência dos prazeres, rurais, da vida, os quais ele tanto louva, apenas por serem.
   Não me dedicarei aqui a apresentar os argumentos de discordância deste estilo de pensamento, porque não é o lugar, mas queria apenas fazer uma pequena análise da poesia do autor. Qualquer refutação aos meus argumentos, é favor avisar!


Texto retirado daqui: http://www.revista.agulha.nom.br/fp214.html

2 nós dados:

DareDevil disse...

Engraçado, descubro a obra de Fernando Pessoa através de ti.
Não tenho feitio (ainda) para parar e ler poesia. Vou lendo o que escreves sobre poesia. Sobre os 3 poemas de Caeiro que abordas, acho que se um dia estiveres a viver um momento emocional idêntico ao que vivo agora vais ler e perceber esses poemas duma forma muito diferente, e perceberas o cruel sentido.

abraços

JMCerdeira disse...

Fico contente de saber que estou a contribuir para alguém conhecer o "Nandinho", que é como quem diz, o Fernando Pessoa. É todo um mundo a descobrir. Quanto ao feitio para ler poesia, eu também só aturo um poema por dia, normalmente. É daquelas coisas que têm que ser apreciadas com calma. Para mim é como os quadros. Nos museus nunca prestamos atenção a nenhum, porque andamos a correr a querer ver todos. Sobre Caeiro, a verdade é que sou um jovenzinho e ainda não passei por muito na vida. Posso compreender a perspectiva dos poemas, mesmo não concordando. O que me irrita em Caeiro é que, em 40, 50 poemas que li (a maioria na diagonal), todos são como esses 3.
Não me querendo meter na vida de ninguém, espero que lhe corra tudo pelo melhor e agradeço as visitas ao blog.
Cumprimentos.