segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Obrigado e até já!

Tudo tem o seu começo... E às vezes, tudo tem o seu fim. Ou a sua pausa. Há 6 anos, comecei uma coisa minha, o Crónicas de uma gravata que, para quem sabe, foi o sítio onde partilhei cerca de 70 e poucos poemas com o mundo. Desde Junho deste ano que não me decidi a escrever mais nada. Mas não há semana que o facto de ter o blog ali a desertificar não me pese e não me soe como uma obrigação a dizer: escreve! Como tal, decidi dar uma pausa a isto, que é para me poder desobrigar a mim próprio de ter de actualizar a coisa. Vou só deixar aqui aquele texto que gosto mais, de todos os que escrevi. Obrigados e ate já!

História de amor entre duas pedras da calçada

Os opostos atraem-se.
Assim foi com estes dois.
Tinha cor de cal, ele;
Cor dos homens com fome.
Branca pedra da calçada.
Delirava com a fome, sim.
Olhava para cima.
Sempre, todo o dia,
Esperava esfomeadamente o amor.

Passava um e muitos,
Mas passavam...
Vinham...
E calcavam o pé.
Mesmo em cheio na sua esperança.
falta ainda

Cansou-se um dia de olhar para cima.
E então,
Fulgurante,
Hesitante,
De coração rubro e palpitante,
Logo que a viu, saltou.

Procurou ele uma vida.
Pela pedra ao lado,
Aquele negrume cor de fado.
Ela que sempre o olhava,
Calada,
Esteve sempre lá.

Com o vislumbre da felicidade,
Em êxtase nesse salto,
Foi parar à estrada.
Passou um carro,
Rua abaixo o levou.

Nunca mais a viu.
Depois de uma inteira vida...
Amando-a sem saber.

P.S.: obrigado especial à revista online Nanozine por publicar um dos meus poemas e à Leonor Ferrão e ao Ricardo Roque Martins por me dar um meio de expôruma das poucas músicas que compus. =)

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Nevoeiro

O meu tempo escasso
Lentamente o (re)passo
Em tão eloquentes rasgos,
Sinceros,desbragados, 
Em longos, loucos debates,
Entre mim e eu próprio.

Que asno!
Deixo a porta no trinco.
Entram, sem hesitações:
Escrúpulos, más contrições,
Análises de corações,
E sempre, sempre as boas intenções.

Não vejo.
É tal o nevoeiro,
Escuro e espesso.
Mesmo a gatinhar tropeço,
E incapaz me confesso
(Se vontade de gatinhar tivesse)
De distinguir o abismo do carreiro.

Choro.
"Desembacia os óculos, meu filho."
Num instante, tudo é brilho!
Para seguir em frente no trilho, 
É pôr um pé diante do outro.

Quem tem boas razões nunca pode ter amor.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Quem espera...

Três.
Não sou de esperas, nada mesmo.
Três vezes.
"Olhem para outro lado, porra."
Pareço bola de ténis,
Percorrendo em "toc..."
"Toc..." o court do balcão.
Três vezes liguei.
Salivo quase...

Energúmeno.
Meia cerveja no goto,
Uma conversa, um tremoço, um arroto.

Ao invés,
Aqui estou, aqui fico, "Chiça, penico"

Três vezes,
Já te liguei três vezes.

"Bardamerda".
Não te espero.
"Fernando, tira aí uma p'ra mim"

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Tropeço

Ainda agora meu corpo a cama beijou...
Já o sol me esbofeteia.
Minha silhueta ergo!
Uma perna, outra,
"Porra", enquanto um qualquer objecto
Me pontapeia o ego e a canela.

Já refeito, saio porta fora
(E carapaça dentro, qual caracol)
Hoje tiraram-me o mundo das mãos...

E o chão dos pés.

Bombardeia-me a tormenta,
E os esgares são rajadas, tiros certeiros.
Cada som da batalha urbana é granada, na minha cabeça dorida.
Hoje sobrevivo somente.

Mil braços me agarram,
Mil pés me rasteiram,
Tropeço em tudo e tanto tropeço.
Já sinto o chão como meu.

Para lá do lodo é terra estrangeira,
Mas há-de ser minha pátria um dia.





sábado, 30 de junho de 2012

História de amor entre duas pedras da calçada

Os opostos atraem-se.
Assim foi com estes dois.
Tinha cor de cal, ele;
Cor dos homens com fome.
Branca pedra da calçada.
Delirava com a fome, sim.
Olhava para cima.
Sempre, todo o dia,
Esperava esfomeadamente o amor.

Passava um e muitos,
Mas passavam...
Vinham...
E calcavam o pé.
Mesmo em cheio na sua esperança.
falta ainda

Cansou-se um dia de olhar para cima.
E então,
Fulgurante,
Hesitante,
De coração rubro e palpitante,
Logo que a viu, saltou.

Procurou ele uma vida.
Pela pedra ao lado,
Aquele negrume cor de fado.
Ela que sempre o olhava,
Calada,
Esteve sempre lá.

Com o vislumbre da felicidade,
Em êxtase nesse salto,
Foi parar à estrada.
Passou um carro,
Rua abaixo o levou.

Nunca mais a viu.
Depois de uma inteira vida...
Amando-a sem saber.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Floresta Encantada

Aqui fica a letra da música feita para a peça "O Rapaz de Bronze" no Colégio Planalto, cantada por mim e tocada pelo António Rogeiro no dia 12 de Junho de 2012.


Sinuosos são os traços
Da velha floresta.
Lembram-me dos abraços
Que nunca me deste,
Que prometeste.


Passo atrás de passo,
Pegadas te deixo.
Não sei o que aqui faço,
Aqui debaixo dum freixo.
Já nem vejo


O caminho,
O carreiro,
Ah!, estou tão sozinho!
O olhar de um feiticeiro,
Ah!, que estou perdido...
Na floresta encantada,
Onde ninguém ouve nada.
Nada. Nada.


Palavras eu ouço mas
Só os pássaros cantam.
Juro eu ouço rimas
Da boca d'uma flor
A seduzir-me.


Dança atrás de dança,
Tantas voltas que dou.
Sou de novo uma criança,
Que chora sorrindo.
Eu já só vejo


O perfume,
O belo canto
Dos colibris.
Não sei que fazia antes,
Ah! sou tão feliz!
Na floresta encantada,
Onde ninguém diz nada.
Nada. Nada. Nada.


Letra: José Miguel Cerdeira
Música: António Rogeiro

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Silêncio

Amordacei o rádio do carro. 
Torres e canhões ergui,
Junto à porta do meu quarto.
Basta. Basta de vibrações,
Puxões, empurrões, vozes que chamam,
Jornais de manhã, notícias ao meio-dia,
Discussões ao chá, 
E oratória... 
(Mais verborreia...)
Noite adentro no televisor.


Meditei, contemplei:
A beleza do intervalo sem anúncios;
A paz da viagem ao silêncio do motor;
O sabor do bife acompanhado pelo negrume de um ecrã.


Hoje calcorreei os becos da minh'alma.
E mesmo sozinho me fartei de ouvir gritar os pensamentos.
Mordaça também para esses, igualmente malditos.


Fiz-me nu do mundo.
Assim sempre posso experimentar outra roupa.

sábado, 31 de março de 2012

Contra ventos e marés

Volta a nação seu pescoço,
Para o passado.
Com seus olhos relê o que fez.

Para onde foste,
Ó lusitana terra,
Cem vezes te arrependeste.
Onde não vingaste,
Mil vezes te flagelaste!

Ó pátria querida!
Só em tua mente és péssima:
Essa colectiva psique!!
Acho que não te amas...

E se inconstante te achas,
Se, vendo o teu rasto,
Vês um ziguezague, de loucuras marcado,
Lembra-te:
Já à bolina ganhaste o mundo!

quarta-feira, 21 de março de 2012

A Paz

Neste dia da poesia, partilho um poema que escrevi quando tinha 10 anos de idade. Portanto, há cerca de uma década. Mais para me rir um bocadinho do que para mostrar qualquer outra coisa.



Para mim a paz
É o mar que vai e vem,
Para mim a paz
É o calor da minha mãe.

Para mim a paz
É termos carinho,
Para mim a paz
É seguirmos bem o nosso caminho.

Para mim a paz
É ajudar,
Para mim a paz
É cantar.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Gradação da dádiva

Se é bonito
O rico esmolar o pobre.
O pouco que é da sua carteira
Ou será o pouco dele próprio.
Que sai dele próprio.
Será bonito,
Para Deus, somente, talvez,
que videre in abscondito.
Não pode o pobre
Celebrar, festejar, em sua honra.

Mais bonito será,
O pobre, desabrigado,
Sem tecto, mal-amado...
Rasgar esse homem,
De sua capa a metade
Para albergar o miserável,
Quase nu;
Ao frio.
Esse pobre é maior que a justiça.

Mas digno do paraíso
(Coisa que não há quem)
É o mendigo...
Que,
Sabendo o recheio da carteira do homem ao seu lado,
Teima em partilhar com ele o seu pão.


*
que videre in abscondito - é latim (embora não esteja certo da correcção gramática e/ou concordância da palavra "que") para "que vê o que está escondido" ou, mais apropriado, "que vê no íntimo". Isto é uma expressão usada para dizer que Deus é o único que pode julgar a bondade ou não duma acção, pois é o único que pode conhecer as intenções de cada um.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Merecias

Merecias.

Tu, sim, tu!
Mãe galinha,
Que ataste as mãos ao próprio filho;
Amante sem cuidado,
Que a tornaste incapaz de se dar;
Pai ausente,
Que não disseste o que era o afecto;
Falso amigo,
Que nele gerou a vingança;
Ó sacerdote indigno,
Que apartaste aquel'alma de Deus.

Merecias um murro bem dado.
Tenho pena, ainda assim.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Letargia

Viscoso.
Sim, viscoso me sinto.
Ao lado uma teia,

Um íman, cordas.


Tudo me prende.
Sai frustrada a raiva.
Monta tenda o desânimo.
Nem com faca de mato,
Nem insuflado pelo ego!

Apenas um vibrante e forte
Pulsar de coração
Serve de exorcismo a esta demoníaca letargia.

sábado, 19 de novembro de 2011

Visita Inoportuna

Amei-te.
Disseste aquele "sim",

Enganador,
Mentiroso como a lua.

Procurei-te.
Não, não fugiste.

Isso tinha sido melhor.

Agora repouso. Engulo.

Faço a cama.
(Desarrumaste-me o quarto todo)

Quase, quase...

Quase são.


E vens tu.
Vens bater-me à porta dos ouvidos.


Batem ao mesmo ritmo:
A aldraba e a minha pulsação.

... És visita inoportuna para o meu coração.

domingo, 30 de outubro de 2011

Pessoal, tenho um poema a concurso no Conte Connosco, do Santander Totta. Toca a votar!!!
http://www.conteconnosco.com/trabalho-detalhe.php?id=808#_=_




A beleza do que podia não ser




Parado.
Paradinho.
Paradito.
A dormir.


Oposto a ele,
Uma boca, aberta
E um olhar suspenso,
De ávidos olhos de mãe.


'É tão lindo a dormir não é?'
Acenam todos.
É um milagre.


Milagre porque dorme,
Milagre porque sorri,
Milagre porque olha,
Milagre porque é, tão só,
Porque é o que podia não ser.


Nada há de mais poético
Que um bebé olhar,
Pois podia ser cego,
Que um bebé ouvir,
Pois podia ser surdo.


Porque poética é a ordem das coisas.
E o caos não tem beleza.
Poético é o comboio chegar a horas.
E o lindo pequeno chegar a ser homem.

sábado, 22 de outubro de 2011

O mendigo

Mendigo
Cruzou-s'o olhar dele com o meu.
Longamente o fixei...
Na retina. 
E voltas,
Voltas longas,
Tanta volta que dei.

Queria pô-lo no papel.

Mas a mim mesmo me neguei.
Por mais que olhe,
Por mais que o pense,
Por mais que o finja,
Eu não sei o que é a fome.





Imagem tirada de: http://imageshack.us/photo/my-images/74/semabrigo9hf.jpg/

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Alfaiataria Real (III)

    Continuando o périplo pelo mundo pessoano depois destes três posts, olho agora para um poema de Álvaro de Campos, intitulado "Depus a máscara". A razão da escolha deste poema em particular foi, um terço dela pela sugestão de alguém, outro terço pela beleza do mesmo, e outro terço pelo pequeno tamanho que me permite fazer uma análise com a qual me contente sem ter de estar a reler o texto durante horas.

Eis o poema:

Depus a máscara e vi-me ao espelho. —
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa




   Este texto, de 10 versos apenas seduz-me, principalmente, por três factos. Primeiro, pela boa pontuação, a qual, interpretada por alguém que saiba declamar, leva a uma temporização dos versos essencial para que o poema soe bem. É difícil mostrar isto sem uma declamação do poema. Mas, servindo de exemplo, enquanto o travessão do 1º para o 2º verso indica uma transição rápida e ríspida, do 3º para o 4º as reticências pausam a leitura para uma ideia diferente dos primeiros 3 versos. Pode parecer idiota e até mesmo picuinhas reparar nisto, mas é sinal de que há poetas que se preocupam com o que escrevem, como o escrevem e como deve ser lido para ser realmente um poema agradável aos ouvidos. 
  Em segundo lugar, o léxico simples fica bem aqui como em muitos textos. Principalmente num texto sobre simplicidade, sobre uma alma nua sem máscara, é engraçada a coerência que o léxico tem, assim, sem muita erudição, exceptuando "términus". Acho que é um tanto exagerado dizer que a palavra erudita coincidir com o tornar a pôr da máscara é propositado, no entanto.
   Finalmente, outra expressão da simplicidade é a ideia explícita, una, numa só estrofe, perceptível, do texto. A comparação da personalidade a uma máscara, como traços fora do "eu" genuíno que se foram ganhando e que servem, de defesa, ou para disfarçar as nossas debilidades. E a ideia de que a máscara pesa, expressa em "Assim é melhor/ Assim sem a máscara", e de que, no fundo, se é sempre criança. No fundo, o texto revela uma conclusão aprendida e vivida pelo "eu poético" de que nós complicamos demais, de que é bom não levarmos as nossas idiossincrasias tão a sério. 
   Pela sua simplicidade, ao contrário de muitos poemas de Álvaro de Campos, pela clareza de mensagem e bela sonoridade, este é um poema do qual gosto e, apesar de não indiscutivelmente, é um belo texto.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Lisboa de Agosto

Lisboa da minha janela @ Agosto 2011
Incrédulo,
Olho-te da janela.


Não, não és tu!


Nua.
Abandonada.
Trocada...
Por uma qualquer...
Sintra ou Albufeira,
Amante de Verão.


E a mim, que te sou fiel,
Porque me olhas assim, triste?


Porque pões em ti
Feições tão sérias,
Se eu te amo mesmo vazia,
Minha Lisboa de férias?


Porque te deitas, desolada,
A suar?
É de ti que gosto.
Agora. Sempre.
Minha Lisboa de Agosto.

sábado, 30 de julho de 2011

Alfaiataria Real (II)

    Desta vez, em vez de partilhar um poema do qual gosto, vou mostrar aqui um poema que não me atrai especialmente, de um autor que não me diz grande coisa - mas que é bastante tido em conta quando se fala de Fernando Pessoa - e com o qual discordo na mensagem quase tanto como desgosto da sua maneira de escrever. Trata-se de Alberto Caeiro. O poema é o que se segue:


IX - Sou um Guardador de Rebanhos

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.


     O texto acima pertence à obra de Alberto Caeiro chamada "O Guardador de Rebanhos". E não é que eu nem goste deste poema em particular. Dentro da obra, diria que este é aquele com o qual me identifico mais.            
    O autor exprime a sua mensagem de maneira bela, agradável de ler, no fundo. Aquilo com o qual não me identifico nada na obra de Alberto Caeiro é todo o conjunto dos seus textos. São todos uma e a mesma coisa. Como que todo um programa ideológico contra a metafísica e o sobrenatural disfarçado em poemas, alguns dos quais não vejo o motivo de estarem representados em verso, quando mais parecem discursos "políticos" sem qualquer sonoridade fora do normal ou harmoniosa. Se quiserem entender o que digo, basta passarem uma vista de olhos por mais dois ou três poemas do mesmo pseudónimo de Fernando Pessoa como Há metafísica bastante em não pensar em nada.  ou Quem me dera que eu fosse o pó da estrada .
   No entanto, gosto da simplicidade do vocabulário deste poema em contraste com outros de Caeiro, do encadeamento inicial tão belo dos "rebanhos", "pensamentos", "sensações", e das belas imagens que transmitem as as três últimas estrofes, em que realmente o autor poetiza a mensagem - com a qual discordo - de que "a única verdade é ser", "a filosofia é inútil", no fundo, a rejeição da metafísica e de qualquer sentido para a vida, advogando portanto a vivência dos prazeres, rurais, da vida, os quais ele tanto louva, apenas por serem.
   Não me dedicarei aqui a apresentar os argumentos de discordância deste estilo de pensamento, porque não é o lugar, mas queria apenas fazer uma pequena análise da poesia do autor. Qualquer refutação aos meus argumentos, é favor avisar!


Texto retirado daqui: http://www.revista.agulha.nom.br/fp214.html

sábado, 23 de julho de 2011

Moleiro

Sibila o vento.
© Joanna McCarthy / SuperStock
Do alto o olhar tacteia
O cobrear da ribeira.
Ela é barragem,
Contém o revoltado mar
Das searas em onda.


No cimo do cume
De olhar sonhador,
Nos mares de trigo,
Vê desertos de farinha.


E encostado ao moinho,
Na farinha que tem nas mãos,
Vê o pão que alimentará seus filhos.




Imagem retirada de: http://www.superstock.co.uk/stock-photos-images/1336-765

terça-feira, 12 de julho de 2011

Alfaiataria Real (I)


  Começo com este post a partilhar alguns autores e poemas dos quais gosto. 
 Quanto à escolha dos poemas, esta prende-se com o meu gosto particular e com uma tentativa de evitar os mais conhecidos dos autores que partilharei. No caso do Fernando Pessoa ortónimo, muitos outros e mais conhecidos haveria do que este, como o "Mostrengo", entre outros.
 Quanto à análise, esta não pretende ser completa e exaustiva, mas uma explicação do porquê de gostar do poema.
Fernando Pessoa 

Quinto Império


Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!


Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz-
Ter por vida a sepultura.


Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!


E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será theatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.


Grecia, Roma, Cristandade,
Europa- os quatro se vão
Para onde vae toda edade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu Dom Sebastião?


   O poema "Quinto Império" tem vários aspectos interessantes e passíveis de análise. Prender-me-ei com apenas alguns. 
   Em primeiro lugar, não se trata de um mero exercício decorativo e de poetizar por poetizar. Na minha humilde opinião, o poema vale tanto pela beleza da sua sonoridade, como pela consistência da sua mensagem. Há uma mensagem clara no texto:
São tristes os que vivem conformados. "Triste de quem é feliz". Ser homem equivale a ser descontente, pelo que os anteriormente referidos não serão homens na sua completude. Deste ponto, o autor parte para a afirmação de que o povo português deve aplicar essa ambição e esse descontentamento na formação de um Quinto Império. O facto de ser o quinto reside na crença do autor de que as pólis gregas, o império romano, a "cristandade" (?) e a "europa" teriam sido os anteriores quatro. Isto apenas para dizer que o autor difere daquele que primeiramente concebeu a ideia do Quinto Império, o Padre António Vieira. De tudo isto, o autor exprime uma mensagem, um apelo, um raciocínio palpável, não uma mera conugação de palavras que soam bem juntas.
   Além disto, a sonoridade é bela. Basta declamá-lo uma vez com calma para o perceber. 
   Finalmente, há uma coisa bastante singela que simplesmente adoro neste texto. O título não é uma proclamação do óbvio. O título tem uma função. O título explica o poema, e este estaria incompleto sem ele. Não que todos os título tenham de ser uma chave de compreensão dos poemas. Mas o facto de o ser é algo que embeleza a obra. 
Assim, sendo uma obra com uma mensagem consistente, expressa de maneira agradável ao leitor, este é um belo poema, do qual eu gosto bastante.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Ser estudante


Rapaz a estudar - 2011

É querer abarcar o planeta com uma pasta
E um olhar mais sem certezas.

É admirar ossos como flores
E contemplar funções como penduradas no Louvre.

É um achar que o exame não chega nunca
E que a cerveja é estimulante intelectual.

É um eterno queixume num dia,
Noutra década são saudades que não passam.

E é amar o mundo como ninguém,
Porque só quem ama quer sempre saber mais.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O erro de Ricardo Reis

Ricardo Reis (Fernando Pessoaa)
Este texto é sobre um poema de Ricardo Reis, pseudónimo de Fernando Pessoa, "Tirem-me os deuses"

Não posso.
Ainda querendo.
Não me "deixam" tirar-te o chão.
Não te tirarei igualmente "os deuses".

Nessa montanha, lá longe,
Em que os vislumbraste,
Fizeste tu o ar irrespirável.
Pois eu O vejo na ribeira que é cobra,
E num martelo; feio; áspero; mundano.

Choras porque te deram direcção
E sim,
"A riqueza é um metal, a glória é um eco
E o amor uma sombra."

Mas de que serve admirar um mapa sem norte?
De nada serve...
Poderes andar e não quereres ir a lado nenhum.

Ah! Levanta o pescoço duma vez!
O amor do Amor é sombra!
E se a sombra é água do mar,
Que só traz sede...
O Amor jorra como fonte!

domingo, 22 de maio de 2011

Lição do campo

Sertã - 2009
Ora diga-me cá:
Escrever o que é?
Por favor!, me diga alguém!
O que é a poesia?


Frutos, diria.
Mais e menos maduros.
Mal ou bem saborosos.
E escrever é colheita.


Será colheita?
Porque se colheita há,
Lavoura houve.
E sementeira!
E amor!!


...Será colheita?
É que eu gosto muito de festas...
E esta só dura uma Primavera.


Bolas, será colheita?
Sendo assim tenho que ir plantar.
Sendo assim tenho que ir viver.
Depois então posso colher.
Depois então posso escrever.


E é essa a lição do campo.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

A beleza do que podia não ser

Imagem retirada de:http://www.culturalivre.net/ 
Dedicado ao pequeno Tomás




Parado.
Paradinho.
Paradito.
A dormir.


Oposto a ele,
Uma boca, aberta
E um olhar suspenso,
De ávidos olhos de mãe.


"É tão lindo a dormir não é?"
Acenam todos.
É um milagre.


Milagre porque dorme,
Milagre porque sorri,
Milagre porque olha,
Milagre porque é, tão só,
Porque é o que podia não ser.


Nada há de mais poético
Que um bebé olhar,
Pois podia ser cego,
Que um bebé ouvir,
Pois podia ser surdo.


Porque poética é a ordem das coisas.
E o caos não tem beleza.
Poético é o comboio chegar a horas.
E o lindo pequeno chegar a ser homem.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Química do Sono

Tuareg, Telheiras - 2011
Caí num buraco,
Melhor digo:
Ele veio, envolveu-me,
Como o saco do lixo,
Negro
...
Um filme a preto e escuro.


Sou marioneta.
E o demónio move-me os fios,
Com amanteigadas mãos,
Das muitas pipocas 
Que, deleitando-se, come,
Guloso.


Numa esquina um cavalo,
Em cima o chão,
Ao lado o tecto.
Contudo, saida não há,
Nem tesoura,
Que me corte os fios.


Mato,
Rio,
Esfolo e sorrio,
E ao fundo do buraco sem fundo,
A terra treme.
E enfim findou o meu sono REM.


Suo.
"Que pesadelo."




P.S.: O sono REM é o sono profundo, quando sonhamos. Wikipedia: Sono REM

quinta-feira, 31 de março de 2011

A esperança

Sertã - 2011
Aceso,
Ilumina o Sol a cidade, 
Na face de uma mãe reflectido,
E na de seus rebentos,
Que, como planetas...
Giram e rodam à volta dessa,
Que é mais sol que o próprio Sol,
Numa qualquer paragem de qualquer rua.


Com remendos,
Oculta da sua saia a pobreza.
Mas o vestido da sua dignidade é de uma só peça.
Com seu sorrir,
Distribui todas as suas posses,
Reservando contudo para os pequenos,
Um brinquedinho:
Suas rudes gorssas pernas,
Quais esquinas ou postes
De uma baliza de futebol.


Com a musical anestesia nos ouvidos,
Ao lado, de negro,
Metal na cara,
O rapaz olha e não vê.
Os olhos não vêm a calçada,
Mas piso;
Nem crianças,
Mas empecilhos;
Nem um autocarro,
Apenas um bilhete para o egoísmo,
No virtual redoma de seu quarto.


Não sabe ela o que comerá amanhã.
Se duma mesa cairão migalhas,
Ou num caixote ficarão restos
Do que a gula do rapaz não consumiu.
Ela não sabe.


Já ele,
Amanhã a ementa é igual:
Doces falsas promessas...
De tão amargo trave,
Como a água do mar,
Que só aumenta a sede.


Olha ela p'ra ele.
Ri-se primeiro.
Tem pena a seguir.
Porque por muitas promessas que ele coma,
E muitas refeições que a ela faltem,
A esperança nutre-a.

quinta-feira, 10 de março de 2011

A única saída

Não sei que te faça.


Londres, 2008.
Aquele olhar frio.
O sangue e as lágrimas,
Tantas.
O rotundo não,
Impregnado do eu,
E a morte roubada por outro homem.
E sim, há sorrisos.
Mas louvar não posso.


O braço que se estende.
Os beijos e abraços,
Apertados.
O grande sim,
Simples, sincero,
E a vida dada por uma mulher.
E sim, há facadas.
Oh!, maldizer não consigo.


Nem quero!
E é tão mais difícil...
Subir a pulso a montanha até aos céus
Que cair nos vales do inferno.
Em todos pesa a gravidade.


Só me resta amar-te...
Querida humanidade.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Soneto à Almofada

O meu poema mais forçado de sempre, cumprindo as regras métricas e de rima de um soneto italiano ou petrarquiano.


Um lado e outro não páro noite inteira.
Minha almofada porque tanto insistes?
Negar-me o conforto, Oh! porque resistes?
Muito eu beijo a mesa de cabeceira.

Não compreendo essa esquizofrenia.
Oh! porque és dura, e de tão má fronha,
Na manhã mole tentando-me à ronha?
Privar-me quero da tua companhia.

Perturba-me essa doença o sono.
Não sonharei o que ninguém sonhou...
Sonho ainda assim não ser mais teu dono.

Troco-te. E mesmo que isso aconteça.
Pois filho do Homem que sempre sou,
Não há onde reclinar a cabeça.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Gente Sertanense ou Lavradores de Amor

Brota, 
Da Terra.
 
A raiz da árvore.

Estes Pedros e Joões
São a mata que povoa,
Onde vem o vento e ressoa.
Nestas terras de boa grei, 
Que o fogo um dia incendeie,
Em vez de folhas, corações!

Desta gente Rude, dizem alguns
Que se julgam todos imunes
Ao verdadeiro julgamento, 
Daquele derradeiro momento,
E eu digo! - honestamente -
Que se há-de ver finalmente
O calibre desta gente
Sincera e que não mente
E por estandarte tem, orgulhosamente:
A figura de uma mulher valente.

Essa gente...

Bela,
Lá de lindas, 
Longínquas localidades.

De terras e maduras idades,
Nos mostrará um dia a alvorada, 
Esta terra, que a mim não me pertence,
 
É de meus pais, qual pátria emprestada.
Que tantas e tantas vezes foi lavrada,
Que tantas e tantas vezes foi amada...

Ai não há de quem, 
Eu tanto e tão bem,
 
De quem tão bem eu pense,
Que desta gente sertanense!




in "Era uma vez a Sertã - histórias e poesias"


O poema é da minha autoria mas os seus direitos pertencem à Câmara Municipal da Sertã, pois o texto foi redigido no âmbito de um concurso literário promovido pela mesma.


P.S.: A foto é de um presépio da freguesia da Cumeada, Sertã, que ganhou um primeiro prémio num concurso de presépios, passo a publicidade.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Vontade de Querer



Poderão tirar-me a honra
Como quem surripia uma carteira.
Ah!, mas tenho a terra!
Terra que piso,
Como meu apartamento,
Na pólis sideral.

Mas...
E se?
Porventura...
M'a levarem debaixo dos pés,
Qual tapete.
E eu tombo,
No vazio?!

Hei-de cair.
Pararei contudo
No rés-do-chão da minha vontade.
Sim, que "sou o capitão da minha alma".
E mesmo que a pegar no leme me furte,
Que já nem queira,
E de novo caia...

Não há mão,
Debaixo do céu,
Que me tire a cave...
O "querer querer"!

domingo, 28 de novembro de 2010

Um murro no estômago...
















Um murro no estômago...
Um esgar, um grito, um gemido.
E tu,
Que eras dardo,
Cerejinha no bull,
(Com uma fé que me dizias ser pedra)
Arregalaste os olhos
E beijaste o chão.

Queixaste-te,
Bradaste e procuraste.
Exigiste até:
Explicações, porquês.

Abre os olhos!
Do balcão,
Vêm gargalhadas.
Riem-se...
De quem foi, cego e direito,
De barriga contra a mesa de bilhar.

domingo, 17 de outubro de 2010

Thomas Malloy



There was this boy:
He was smart and young and smiled and all.
Thomas Malloy,
Was his name and he made everyone laugh and
Be full of joy.
They wanted to just be around but,
A desperate boy,
For he lacked something
And he didn't know what it was. (2x)

So, he went to the woods,
With friends, tents and a bonfire.
The brightness of the stars,
The freshness of the river,
The bad smell of his friend Lars
Didn't convince him.

Chorus
So,
Thomas Malloy
Kept the search for that thing.
And he didn't know what it was. (2x)

Then, he thought he'd try the nightclub.
He danced, drank, maybe too much.
Multicoloured lights,
His view completely blurred,
Girls with skirts so tight
Didn't convince him.

Chorus

Monday at work,
There were files, reports, but no coffee.
The "credit crunch",
A headache from last night,
And half hour to lunch
Didn't convince him.

Chorus

Sad, and crying like a baby,
He gone home, that day,
Looked at his lil sister smiling
And found the beauty of everyday. (2x)

There was this boy:
He was smart and young and smiled and all.
Thomas Malloy,
Was his name and he made everyone laugh and
Be full of joy.
They wanted to just be around this
So happy boy,
For he found something
And it was the beauty of everyday. (2x)

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A carruagem mascarada

Os sorrisos foram-se.
Mascarados:
Todos e cada um,
Na carruagem
(Caixão me parece).

Então tentei...
De soslaio olhei...
Pelo reflexo do vidro do metro.
Talvez fosse a mascarada um feitiço barato.
Mas,
Irritantemente
Não caíram.

Às tantas,
Fingi enamorar-me d'outra vista.
Esperar. Esperar. Esperar.
E num repente quase sem tempo,
Fulminei-lhes as caras de esgares,
A um e outro e outra,
Fazendo os meus olhos roleta russa.
E todos viram que estava a olhar.
Não caíram.

Então,
Um rasgo de esperança.
De vidro em vidro, até meu ouvido,
Bate uma musiquinha.
Contudo,
Depressa desceram as pontas de meus lábios.
Quando vi.
Até o acordeonista...
Não caiu.

Abriram-se as portas.
Hesitante,
Desconfiado,
Pus um pé e outro fora.
Quando o apito,
Solene,
Do fecho das portas,
Soou,
Tornaram a pedir meus olhos,
Que confirmasse.
E estava tudo igual.
Não caíram.

E disse-lhes:
"Fizeram-lhes mal as férias."